Advogados de mãos atadas: o desafio de trabalhar sob governos autoritários
O cancelamento em massa de licenças de trabalho para advogados na Nicarágua revela uma purga de juristas considerados inconvenientes para o governo e evidencia os obstáculos à defesa jurídica em países com governos autoritários.
Diversas credenciais de advogados nicaraguenses foram recentemente revogadas do registro na Suprema Corte de Justiça, o que prejudica o exercício da profissão, segundo vários indivíduos afetados.
O governo dos copresidentes e cônjuges Daniel Ortega e Rosario Murillo usa o "controle do registro de advogados e notários para punir pessoas consideradas de oposição ou independentes", disse à AFP, sob condição de anonimato, uma advogada nicaraguense exilada, cujo nome foi omitido.
O jornal nicaraguense La Prensa, publicado no exílio, estimou que as licenças de cerca de 2 mil advogados foram revogadas. A AFP não conseguiu verificar esse número de forma independente.
Um ex-funcionário judicial de alto escalão contou à AFP que existem aproximadamente 40 mil advogados na Nicarágua e estimou que "centenas" podem ter sido impedidos de exercer a profissão por motivos políticos ou por irregularidades em sua atuação.
Alguns advogados descobriram isso quando tentaram realizar trâmites ou acessar a plataforma digital para consulta de processos, disseram defensores exilados à AFP.
Um grupo de especialistas da ONU na Nicarágua denunciou na segunda-feira o que chamou de "expurgo silencioso" e "mais um prego no caixão da independência da Justiça" nicaraguense.
Em 2023, após uma intervenção policial, altos funcionários da Corte foram demitidos. Dois anos depois, reformas constitucionais redefiniram o Poder Judiciário como um "órgão" coordenado por Ortega e Murillo, que governam há quase duas décadas e atualmente detêm poder absoluto.
- "Colapso total da justiça" -
Para a advogada exilada, os colegas em atividade terão que exercer a advocacia como um "privilégio do regime", que pode cassá-lo a qualquer momento e "sem qualquer justificativa".
Ela também prevê que muitos "enfrentarão sérias dificuldades econômicas" e alguns se somarão à diáspora nicaraguense.
É uma "morte civil", resumiu a advogada, para quem a medida faz parte de um "padrão de perseguição" que inclui a cassação da nacionalidade de críticos ao governo.
"Na Nicarágua, há um colapso total da justiça. Os advogados sabem que não podem lutar contra o Estado e foram deixados apenas para redigir documentos. Não há devido processo legal, apenas submissão aos ditadores", afirmou o ex-funcionário judicial exilado.
A vulnerabilidade dos advogados não é exclusiva da Nicarágua.
Em El Salvador, o presidente de direita Nayib Bukele e sua bem-sucedida guerra contra as gangues, iniciada em 2022, marcaram uma virada para a justiça em seu país, afirma a advogada salvadorenha Roxana Cardona.
Sob o estado de exceção que ampara essa ofensiva, os advogados não podem se comunicar com seus clientes nem têm acesso oportuno aos autos dos processos, o que dificulta a preparação da defesa, explicou Cardona.
Entre as mais de 92 mil pessoas presas desde 2022 sem mandado judicial, milhares são inocentes, segundo ONGs.
- Defesa limitada -
As restrições se estendem até mesmo a presos de alto perfil, como a advogada Ruth López, cujo advogado não pode visitá-la regularmente. Ela foi presa há um ano, após denunciar supostos casos de corrupção no governo Bukele e violações de direitos humanos.
"Por medo do estado de exceção, as testemunhas não querem cooperar conosco com provas a favor de nossos clientes", disse um advogado particular à AFP, citando a demissão de centenas de defensores públicos e o crescente número de casos abandonados.
Ele preferiu não se identificar porque, como esses processos são confidenciais sob o estado de exceção, poderia acabar preso.
Desesperado com a falta de avanços na comprovação de que seu filho "não é membro de uma gangue", um pai trocou de advogado três vezes em um ano e meio e não conseguiu que o último fosse credenciado.
"Me preocupa que eles possam convocar uma audiência de última hora e não tenhamos ninguém para defendê-lo", disse à AFP.
Em países como a Venezuela, esses contratempos são agravados por "tratamento degradante, assédio, ameaças e estigmatização" por parte de funcionários judiciais, segundo denúncias compiladas pela ONG "Foro Penal", que representa centenas de opositores presos.
A defesa desses detidos é extremamente limitada em Cuba, onde não existem escritórios de advocacia privados e a comprovação da inocência está nas mãos do próprio Estado.
bur-hma/axm/mis/mar/nn/aa/am
© Agence France-Presse
Latest stories
La Une Audition sous tension attendue au Congrès pour le ministre de la Justice choisi par Trump
Ancien avocat personnel de Donald Trump, Todd Blanche a été choisi par le président républicain pour devenir ministre de la Justice. Mais ce choix, fortement critiqué par l'opposition démocrate, doit d'abord passer l'épreuve du...
France Le taux du Livret A attendu en hausse mercredi
Le nouveau taux du Livret A, fixé par le ministre de l'Economie sur proposition de la Banque de France, est attendu mercredi. Il sera en toute logique orienté à la...
La Une Le procès d'un collégien pour le meurtre d'une surveillante s'ouvre mercredi en Haute-Marne
Il a tué une surveillante de son collège en Haute-Marne, pour un motif apparemment futile, à l'âge de 14 ans: plus d'un an après, le procès de cet adolescent s'ouvre mercredi à Chaumont et...