Meio Ambiente

Calor incomum fez geleira do Nepal colapsar e provocar avalanche mortal, diz cientista

Published on Setembro 8, 2026 at 22:56

Casas danificadas pelas repentinas inundações devastadoras no Nepal, provocadas pelo colapso de uma geleira na montanha, em agosto — Pedro PARDO / AFP
Infografia com a temperatura média no verão entre 1970 e 2026 estimadas na zona da avalanche após o colapso de uma geleira em 26 de agosto, segundo daos recolhidos pela organização Berkeley Earth a partir do programa europeu Copernicus e de uma rede de 14 estações meteorológicas em altura. — Paz PIZARRO, Luca MATTEUCCI / AFP
Casas danificadas pelas repentinas inundações devastadoras no Nepal, provocadas pelo colapso de uma geleira na montanha, em agosto — Pedro PARDO / AFP

A seção da montanha cujo deslizamento desencadeou as cheias mortais na China e no Nepal em 26 de agosto experimentou um calor sem precedentes para esta época do ano, mostram dados meteorológicos analisados por um pesquisador.

As temperaturas médias na geleira da montanha, a 5.200 metros de altitude, foram estimadas em cerca de cinco graus Celsius entre 21 e 26 de agosto. Trata-se de uma temperatura excepcionalmente alta.

Em mais de 55 anos de registros, os termômetros não superaram os quatro graus Celsius nesse mesmo período. No entanto, até agora não foi estabelecido nenhum vínculo direto com a avalanche.

Essa série de temperaturas muito localizadas foi reconstituída por Robert Rohde, cientista-chefe da organização independente Berkeley Earth, com sede na Califórnia.

No local da avalanche, a temperatura média registrada nesse período de seis dias aumentou cerca de 1,8º C desde meados do século XX.

Sem o calor adicional aportado pelas mudanças climáticas, um padrão de temperaturas comparável "provavelmente só ocorreria uma vez a cada milhares de anos", estimou Rohde, em declarações à AFP.

A avalanche ocorreu durante o quarto verão mais quente já registrado na região de Langtang, segundo análise da AFP com base em dados do observatório europeu Copernicus que remontam a 1970.

"Estas condições de calor também podem explicar o degelo do permafrost e o deslizamento combinado de encosta e geleira", disse a climatologista francesa Valérie Masson-Delmotte.

O permafrost é uma camada de solo permanentemente congelado nas regiões polares. Atua como um cimento de gelo, que mantém unidas as paredes rochosas. Sua degradação as torna mais instáveis.

Imagens de satélite também mostraram um degelo significativo da neve nos dias anteriores à tragédia, o que proporcionou "uma fonte considerável de água capaz de se infiltrar nas rachaduras da montanha e facilitar os deslizamentos de terra", afirmou Etienne Berthier, glaciologista da agência científica francesa CNRS.

No entanto, os especialistas se mostram cautelosos sobre o papel exato da onda de calor. "Não é tão simples quanto 'alta temperatura equivale a deslizamento'", explicou à AFP Kristen Cook, geomorfologista da Universidade Grenoble Alpes, na França.

"Se a temperatura atuou como gatilho, parece que foi preciso esperar até que a rocha estivesse justamente no ponto de inflexão do desmoronamento", ressaltou Kristen.

Os cientistas examinam agora os pequenos movimentos observados na montanha nos anos anteriores ao deslizamento, e sua interação com as mudanças de temperatura.

"Demonstrar que a rocha próxima do plano da fratura estava significativamente fragilizada como resultado da água de degelo e/ou do degelo do permafrost" seria uma "evidência clara" das mudanças climáticas, disse Rohde, da Berkeley Earth. Sua análise de temperaturas usou dados do modelo climático ERA5, do programa Copernicus, e uma rede de 14 estações meteorológicas de grande altitude, situadas entre 9 e 140 km da geleira que colapsou.

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