O coquetel letal que causou tantos desabamentos no duplo terremoto na Venezuela
Solos instáveis, uma área sísmica e falhas nas construções foram, segundo os especialistas, os ingredientes para desatar uma "tempestade perfeita" durante o duplo terremoto na Venezuela, que deixou mais de 6.300 mortos e milhares de pessoas sem casa.
Jennire García e sua família moram há oito semanas em barracas de camping coloridas a poucos metros de seu apartamento, transformado em ruínas em Catia La Mar, de frente para a praia. Seu prédio, que mal ficou de pé, foi declarado inabitável por risco de desabamento.
"Sinto tristeza porque é vê-lo todos os dias lá, (pensar em) os confortos que eu tinha e que aqui não posso ter", lamenta García, em sua "casinha".
Dois sismos consecutivos de magnitudes 7,2 e 7,5 derrubaram 190 prédios e afetaram outros 856 em Caracas e no estado vizinho de La Guaira, em 24 de junho.
Toneladas de escombros apagaram em vários setores de La Guaira, como Catia La Mar, a característica imagem de cartão postal do balneário.
O norte da Venezuela, onde fica este estado, situa-se perto da fronteira das placas Sul-americana e do Caribe, que geram alta atividade sísmica ao se chocarem.
Considerada o marco zero do desastre, La Guaira tem solos "imaturos" ou "não consolidados", que demandam "estudos geotécnicos" durante a construção, explica o engenheiro Feliciano De Santis, presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos.
Este estado sofreu um deslizamento mortal em 1999 que, lembra o especialista, "para efeitos de geologia, ocorreu há um milissegundo", razão pela qual "estes solos geralmente tendem a ser solos soltos".
Durante os terremotos de junho, ocorreu "a tempestade perfeita", pois pelas características do solo, houve uma "amplificação do sinal sísmico". O terreno se moveu com maior intensidade, explica.
O conjunto residencial onde García morava, construído depois do deslizamento, ficou com rachaduras profundas em suas paredes amarelas. Várias varandas se desprenderam e inclusive alguns prédios afundaram.
A mulher de 42 anos ficou sem teto, assim como mais de 23 mil pessoas que vivem em abrigos improvisados, segundo dados oficiais.
Quase 22 mil residências sofreram danos severos ou são consideradas de alto risco, segundo dados oficiais. São 40% do total avaliado, especialmente em La Guaira e Caracas.
As autoridades atualizaram pela última vez em 2019 a norma sismo-resistente, que foi ajustada desde que um terremoto de magnitude 6,6 sacudiu a capital em 1967.
Mas em La Guaira, "detalhes importantes" revelam falhas na construção das edificações, assegura o engenheiro japonês Kit Miyamoto, que percorre o estado com apoio dos Estados Unidos.
Por exemplo, "parece que têm muito aço, isso parece algo muito bom", embora "se suponha que a barra de reforço deve estar bem fundo dentro da cimentação para mantê-la firme, não é? Mas não é assim", e em alguns casos, eram superficiais, afirma.
Socorristas ainda tentam recuperar os corpos nos complexos habitacionais destruídos que podiam chegar a 12 andares e 16 apartamentos por andar.
Entre 2011 e 2013, foram construídas 43 torres conhecidas como OPPEE, projetos bandeira do popular presidente Hugo Chávez (1999-2013), falecido. Com os tremores, 16 desabaram e os restantes ficaram com severos danos estruturais, segundo o veículo Armando.Info.
Em uma recente investigação, este veículo revelou que "contratos atribuídos a dedo a empresas com experiência desconhecida" influenciaram na magnitude dos danos.
Embora em menor escala, a capital Caracas também sofreu estragos. A maioria das edificações colapsadas foi construída antes do terremoto de 1967, segundo o Colégio de Engenheiros da Venezuela.
Os edifícios "tinham sobrevivido, alguns tinham sido reforçados", diz seu representante, o engenheiro Félix Ojeda.
Chacao, o município mais afetado da capital, soma 68 mortos, três edifícios colapsados e dezenas inabitáveis.
Para o engenheiro Ojeda, "há muitos detalhes que podem lançar luz sobre o comportamento da edificação" impactada. A chave? "Definitivamente, é preciso levar em conta os escombros", avalia, com amostras no local.
O "próximo passo óbvio" é "derrubar os edifícios" e "reparar tudo o possível", completa Miyamoto.
"Simplesmente preparar um terreno limpo pra que as pessoas possam voltar a investir ali", diz o engenheiro japonês.
No fim de julho, começaram as demolições controladas em La Guaira em meio ao hermetismo e a altos controles de segurança.
Responsabilizada por uma resposta lenta e insuficiente, a presidente interina Delcy Rodríguez ordenou militarizar o estado e prometeu entregar cerca de 4 mil residências este ano.
A mandatária, que governa sob pressão de Washington após a captura do presidente Nicolás Maduro, em janeiro, impulsionou uma lei para incentivar os aluguéis e antecipa um censo para identificar futuros beneficiários de moradias.
Jennire García conta que foi recenseada, mas a incerteza a consome. Ela se arma como pode de paciência debaixo do toldo que a protege do sol inclemente.
"Fico doente de estresse todo o dia. A gente sente angústia de ficar (...) esperando alguma resposta e não a temos", lamenta.
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