Preso pela guerra, capitão relata seus 115 dias de pesadelo no Golfo
O capitão Mohammad Shafiqul Islam conseguiu retornar a Bangladesh após passar 115 dias em alto-mar em um navio no Golfo com 31 tripulantes, observando mísseis iluminarem o céu noturno e racionando comida e água.
Em sua casa em Comilla, no leste de Bangladesh, este pai de três filhos relata o pesadelo que viveu no mar desde 28 de fevereiro, quando um míssil atingiu um depósito de petróleo a 200 metros de sua embarcação, e que se estendeu até 23 de junho, dia em que o cargueiro Banglar Joyjatra foi finalmente autorizado a cruzar o Estreito de Ormuz.
"Tentei manter a calma porque era responsável por 31 vidas, por um navio avaliado em 40 milhões de dólares [R$ 203 milhões, na cotação atual] e por uma carga estimada em 8,2 milhões de dólares [R$ 41,6 milhões]", declara o capitão à AFP.
A embarcação, propriedade da companhia de navegação pública de Bangladesh e fretada por uma empresa sediada em Singapura, chegou em 26 de fevereiro nas proximidades do porto de Jebel Ali, nos Emirados Árabes Unidos, para descarregar 39.000 toneladas de bobinas de aço.
"O ambiente era opressivo", recorda o homem de 51 anos.
No amanhecer de 28 de fevereiro, o primeiro dia dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, os marinheiros viram do navio um míssil atingir um depósito de petróleo, que pegou fogo rapidamente.
Em poucas horas, o porto mergulhou em silêncio e a angústia tomou conta da tripulação. O embaixador de Bangladesh nos Emirados Árabes Unidos pediu a Islam que deixasse o navio, mas o capitão decidiu permanecer a bordo, confiando que a situação se acalmaria.
Nos dias posteriores, sucederam-se explosões ensurdecedoras. Dias depois, aproveitando uma trégua, descarregaram a mercadoria. Mas logo em seguida o Banglar Joyjatra perdeu a comunicação via satélite, seu sistema de navegação parou e, quando estava perto de Ormuz, não conseguiu autorização para continuar sua rota.
Ancorou então no porto de Hamriyah, em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, onde permaneceu por mais de dois meses.
"Decidimos racionar a água, reduzindo nosso consumo de 20 toneladas por dia para apenas cinco toneladas", conta o capitão.
Entre os 31 tripulantes havia jovens marinheiros em sua primeira viagem marítima, uma experiência que os traumatizou.
"Procurei confortá-los. Alguns passavam o dia recitando o Alcorão, outros passavam o tempo no TikTok. Eu só queria que todos mantivessem a calma", disse.
Após o anúncio de um cessar-fogo em 8 de abril, o navio tentou novamente cruzar o Estreito de Ormuz. Mas "o oficial (da Guarda Revolucionária) se recusou a nos dar autorização".
Quase quatro meses depois, em 23 de junho, o Banglar Joyjatra finalmente foi autorizado a atravessar o estreito, apesar dos riscos representados pelas minas marítimas.
"Um silêncio absoluto reinava enquanto nos aproximávamos do estreito", recorda o capitão que, apesar da desventura, pretende "continuar navegando por muito tempo".
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