Espanha defende sua soberania sobre Ceuta após crise migratória
A Espanha insistiu, nesta segunda-feira (3), que sua soberania sobre Ceuta é "inquestionável", depois que dezenas de milhares de migrantes entraram de forma irregular na semana passada neste enclave espanhol no norte da África procedentes do Marrocos.
Madri tem evitado criticar Rabat por estas chegadas maciças, que alguns analistas interpretaram como uma forma de pressão do Marrocos sobre a Espanha.
O Marrocos reivindica sua soberania sobre Ceuta e Melilla - o outro enclave espanhol no norte da África - desde sua independência, em 1956, mas a Espanha rejeita taxativamente qualquer negociação sobre os dois territórios.
"É inquestionável que Ceuta e Melilla são parte da integridade territorial da Espanha", reiterou, nesta segunda-feira, o ministro espanhol de Relações Exteriores, José Manuel Albares, em declarações à TV pública.
A maioria dos cerca de 50.000 migrantes que chegaram na semana passada a Ceuta - em grande parte rodeando o pequeno posto fronteiriço que avança pelo mar - já retornaram ao Marrocos. Segundo o delegado do governo central em Ceuta, Miguel Ángel Pérez, cerca de 2.500 seguiam no enclave nesta segunda-feira.
No entanto, o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, situou este número entre 3.000 e 5.000.
Dezenas deles aguardavam em condições precárias em uma área de armazéns da cidade.
"Não temos água pra nos lavar ou tomar banho. Os chuveiros e os banheiros estão fechados", disse à AFP Nadia, uma migrante marroquina de 29 anos.
"Há sujeira e mofo. Os banheiros estão sujos. Muita gente usa e não são suficientes para todos", afirmou Asia, que também havia feito a travessia.
A ONG Save the Children informou, nesta segunda-feira, em um comunicado, que "cerca de mil meninos e meninas" recebem atendimento do sistema de proteção da cidade, que está muito acima de sua capacidade estrutural, de "menos de uma centena de vagas".
As autoridades espanholas afirmaram que o número de mortos ao tentar entrar em Ceuta não mudou nesta segunda-feira, permanecendo em 72.
"Primeiro é preciso identificá-los, o que é o principal problema, porque muitos deles vinham sem qualquer tipo de documentação", indicou uma fonte da Delegação do Governo em Ceuta.
"Depois, teríamos que saber de quem são as famílias", junto às autoridades marroquinas, acrescentou. Em seguida, "teria que haver um processo de identificação (...) por parte das famílias. Pode ser um procedimento longo", concluiu.
Alguns analistas sugeriram que o Marrocos poderia ter permitido a travessia dos migrantes para exercer pressão diplomática sobre a Espanha, que recentemente melhorou suas relações com a vizinha Argélia, arqui-inimiga de Rabat.
As autoridades espanholas responsabilizaram quadrilhas de criminosos de difundir boatos sobre uma recente sentença do Tribunal Supremo espanhol sobre imigração, que permitiria uma travessia mais fácil para os migrantes.
Os ministros do Interior da UE programaram uma videoconferência para esta terça-feira para abordar a situação.
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